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A Linguagem Colonial e a Emancipação do Espírito

  • Foto do escritor: Uiara Mei
    Uiara Mei
  • há 4 dias
  • 3 min de leitura

A Linguagem Colonial e a Emancipação do Espírito. Uiara Mei
Uiara Mei - Escritora, Autora, Critica literária, Pensadora, Ativista do Discernimento; adora juntar filosofia, história, literatura e espiritismo em suas conversas.

Recentemente assisti a um vídeo onde um rapaz explicava o significado no sufixo "-eiro", eu entendi perfeitamente a mensagem que ele quis passar, mas fiquei espantada em como esse conteúdo gera curiosidade, ou até mesmo conexão de pertencimento talvez de um lugar que ainda é muito confuso, uma fome de saber qual é realmente a sua raiz: Quem somos nós Brasileiros? Citei o vídeo em questão, em uma das minhas redes sociais e os comentários foram assustadores, de como tudo neste país caba em um discurso ofensivo político. Existe uma cortina de fumaça que deixa as pessoas incapazes que enxergar o óbvio. Olhar para a formação do Brasil sem os filtros românticos dos livros escolares é o primeiro passo para o verdadeiro despertar consciente. Quando analisamos a raiz da nossa sociedade, percebemos que o racismo, a desigualdade e a violência estrutural que testemunhamos hoje não são falhas ou defeitos do sistema; são, na verdade, o sistema funcionando exatamente como foi projetado para funcionar desde o período colonial.


Neste cenário de resgate histórico, a linguagem desempenha um papel central: ela não apenas descreve a realidade à nossa volta, mas cria egrégoras vigorosas que perpetuam ou quebram ciclos de submissão.


O Sufixo "-eiro" e a Identidade de Exploração


Um debate recente nas redes sociais trouxe à tona uma provocação cirúrgica sobre a nossa identidade linguística. Embora discussões na internet frequentemente se percam em detalhes técnicos superficiais — como o debate etimológico sobre a palavra "indígena" —, focar no erro gramatical é apenas uma tática inconsciente para desviar a atenção da denúncia principal: o apagamento cultural promovido pela colonização.


O ponto crucial reside na compreensão do termo "brasileiro". Historicamente, uma das funções históricas mais frequentes do sufixo '-eiro' era designar ofícios e atividades econômicas, o que torna particularmente significativo o fato de que o termo 'brasileiro' tenha surgido associado à exploração comercial do pau-brasil. No início, "brasileiro" não definia quem nascia na terra, mas sim quem exercia o trabalho braçal e comercial de extrair o pau-brasil para enviar a riqueza para fora.


Fomos nomeados a partir da exploração mercantil. Compreender essa raiz histórica não é buscar debate, mas sim alcançar uma constatação e uma emancipação linguística necessária, juntamente com a linguagem colonial e a emancipação do espírito.


O que as histórias que nos antecederam podem revelar sobre quem somos hoje?


Carregar esses termos sem o devido discernimento nos mantém atados a memórias ancestrais de dor e servidão. Investigar a própria árvore genealógica e escolher as palavras com as quais nos definimos é um ato de reparação e transmutação espiritual.


Ao rejeitar a egrégora (as palavras também carregam camadas simbólicas, emocionais e coletivas que moldam nossa percepção de pertencimento) de exploração impregnada no gentílico oficial, abre-se espaço para novas formas de autodeclaração — como o termo brasiliana, que evoca o estudo, a documentação e o olhar soberano de quem organiza as memórias da terra, em vez de apenas servir a ela.


Não se trata de mudar o dicionário, mas de libertar a consciência. Afinal, podemos apenas residir temporariamente neste território físico, mas o nosso espírito pertence unicamente à sua própria liberdade.


Liberdade essa que é ilusória, pois o sistema continua escravista e opressor. Embora a escravidão tenha sido formalmente abolida pela Lei Áurea, muitas de suas estruturas sociais, econômicas e simbólicas permaneceram ativas e continuam produzindo desigualdades. Tudo na vida tem o seu tempo de maturação, então hoje tendo acesso a essa informação, e no meu tempo contemplativo de maturação, o grande desafio de investigar minha árvore genealógica me ensinou que não se trata de negar quem somos, mas de compreender as camadas do que herdamos. Sou resultado de encontros, violências, resistências e permanências. Sou africana, indígena e portuguesa. Sou fruto do café com açúcar, da colonização e da sobrevivência. Habito este território, mas meu espírito pertence à sua própria liberdade.

E, se as palavras também constroem pertencimento, por que não me considerar Brasiliana?

Nota: As reflexões apresentadas neste texto fazem parte das investigações desenvolvidas no projeto Narrativas de Origem, dedicado ao estudo das relações entre memória, ancestralidade, identidade e história familiar.



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