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A Literatura fora das Necessidades Básicas: O que acontece quando o livro não mata a fome?

  • Foto do escritor: Uiara Mei
    Uiara Mei
  • 25 de mar.
  • 3 min de leitura

Atualizado: 30 de abr.



A Literatura fora das Necessidades Básicas
Uiara Mei - Escritora, Autora, Critica literária, adora juntar filosofia, literatura e espiritismo em suas conversas

Recentemente, ao acompanhar um debate sobre o mercado editorial e o consumo de cultura no Brasil, ouvi uma afirmação que me acompanhou por dias: a de que as pessoas não compram livros porque precisam priorizar o básico, como a alimentação. Essa frase, embora pareça um diagnóstico pragmático da nossa desigualdade, esconde camadas que precisam ser desveladas. Afinal, o que acontece quando o livro deixa de ser visto como nutrição e passa a ser tratado apenas como um excedente? A pergunta que fica no ar é tão simples quanto devastadora: "O que essas pessoas gostariam de ler?"


Essa pergunta revela uma verdade incômoda: para grande parte do Brasil, a literatura foi colocada fora das necessidades básicas. Enquanto o mercado discute tendências e teorias complexas, existe uma multidão na informalidade e na vulnerabilidade que sequer é vista como "público".


E a resposta, muitas vezes, é um silenciamento. Entre o "eu sobrevivo" e o "eu leio", há um abismo cavado pela linguagem erudita ou rebuscada que não comunica, mas exclui. Ao ler o livro "Comunicação e Expressão" para a faculdade de Filosofia, percebo que a busca por uma linguagem universal é, na verdade, uma busca impossível. A língua é viva, varia no tempo e se adapta às necessidades de quem a fala. Como aponta o material acadêmico na página 20: “É importante termos essa consciência para que possamos evitar atitudes preconceituosas e excludentes.”


O Degrau que Falta: O Olhar de Maslow


Isso me faz pensar imediatamente na famosa Pirâmide de Maslow. Na psicologia e na gestão, aprendemos que o ser humano precisa garantir a base — comida, segurança, descanso — antes de conseguir focar nos degraus de cima, como o conhecimento e a realização pessoal.


É cruel e até ingênuo exigir letramento e sede de leitura de quem gasta toda a sua energia vital apenas para manter a base dessa pirâmide de pé. Se a pessoa não conquista o básico, ela dificilmente terá fôlego para o degrau do saber. A literatura que não entende essa luta não é arte; é distanciamento social.


O Abismo entre o Erudito e o Popular


Existe uma fissura perversa entre o autor que domina a norma culta e o autor popular. Este último, muitas vezes ridicularizado por suas "obras simplórias", é quem realmente consegue falar com a massa. No entanto, não existe uma estratégia de entrega ou um modelo de negócio que caiba no bolso desse autor. Como costumo dizer: são muitas camadas neste abismo.


Essa barreira da linguagem me faz lembrar de um desabafo recente de uma influenciadora. Mesmo que os números oficiais de alfabetização no Brasil pareçam altos, a realidade do letramento pleno conta outra história: a grande maioria da nossa população ainda luta para interpretar textos complexos.


Como ela bem disse, quem tem o privilégio do estudo não deveria usar o conhecimento para excluir, mas para agregar. Afinal, 'a informação não compartilhada é uma vela apagada'.


Uma Provocação Filosófica


Podemos recorrer ao conceito de "Injustiça Epistêmica" de Miranda Fricker para entender esse incômodo. Quando a indústria literária e a academia invalidam a fala de quem não possui o "diploma da norma culta", elas cometem uma injustiça contra o sujeito enquanto conhecedor. Se a comunicação não acontece de acordo com a necessidade da comunidade, ela não é ponte; é muro.


Não se trata de tornar "regular as irregularidades" da nossa língua, mas de entender que a beleza da criatividade humana reside na sua capacidade de criar novas estruturas. Tornar a literatura acessível não é apenas baixar o preço do livro, é baixar o tom da arrogância acadêmica para ouvir o que a margem tem a dizer.


Afinal, se a literatura não serve para iluminar a realidade de quem sobrevive, ela corre o risco de ser apenas um objeto decorativo em uma estante elitizada. E, como bem sabemos, uma vela que não ilumina o próximo acaba se consumindo no próprio isolamento.


Você já sentiu que um livro não fala a sua língua? Vamos conversar nos comentários.



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3 comentários

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Mister Jota
11 de abr.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

A questão também passa pela dominação da classe alta sobre a massa trabalhadora. Não existem políticas voltadas para a verdadeira alfabetização da população. Os indicadores de educação apenas mostram o superficial: pessoas sendo aprovadas no ensino médio sem um critério de avaliação sensato. Aprovação pela aprovação. É necessário para a elite uma população que não leia e se melindre com os big brothers da vida, pois um povo em meio ao besteirol é mais fácil de manipular que um povo na biblioteca.

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Leon Nunes
30 de mar.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Não mentirei, gostaria muito de que as pessoas - todas, todas mesmo - tivessem um vocabulário rico. É utópico, eu sei; até gerou discussão num grupo de whatsapp que participo, fui xingado por dar essa minha opinião - houve quem disse: isso é elitista (no meu entender, elitista é outra coisa). Mas como exigir? Há quem acorda às 3 da manhã, para ir ao trabalho que começa às 8, tendo de pegar mais de um ônibus e até dois ou três metrôs, e chegar em casa só depois da meia-noite; como?, como, se essas pessoas não tem tempo nem para respirar? Aí (sem falar de política partidária aqui) é importante a diminuição da escala semanal de trabalho, pelo menos (se…

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Uiara Mei
Uiara Mei
08 de abr.
Respondendo a

Olá, Leon. Grata pela contribuição. Sim, são muitos os desafios. Mas não podemos esquecer que a literatura é de consumo elitizado; sempre foi. No entanto, não é porque é assim que deve permanecer. Torço para que as coisas mudem de alguma forma, algum dia. Começando por nós, escritores e autores.

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