A Literatura fora das Necessidades Básicas: O que acontece quando o livro não mata a fome?
- Uiara Mei

- 25 de mar.
- 3 min de leitura

Recentemente, em um bate-papo no FLAL (Festival de Literatura e Artes Literárias), o colega poeta Wagner Ávlis trouxe à tona uma ferida aberta na nossa indústria: as camadas sociais sistematicamente excluídas da arte. Ele questiona para onde raramente olhamos — para aqueles que vivem na informalidade e na vulnerabilidade, fora da base da pirâmide social. A pergunta que fica no ar é tão simples quanto devastadora: "O que essas pessoas gostariam de ler?"
Essa pergunta revela uma verdade incômoda: para grande parte do Brasil, a literatura foi colocada fora das necessidades básicas. Enquanto o mercado discute tendências e teorias complexas, existe uma multidão na informalidade e na vulnerabilidade que sequer é vista como "público".
E a resposta, muitas vezes, é um silenciamento. Entre o "eu sobrevivo" e o "eu leio", há um abismo cavado pela linguagem erudita ou rebuscada que não comunica, mas exclui. Ao ler o livro "Comunicação e Expressão" para a faculdade de Filosofia, percebo que a busca por uma linguagem universal é, na verdade, uma busca impossível. A língua é viva, varia no tempo e se adapta às necessidades de quem a fala. Como aponta o material acadêmico na página 20: “É importante termos essa consciência para que possamos evitar atitudes preconceituosas e excludentes.”
O Degrau que Falta: O Olhar de Maslow
Isso me faz pensar imediatamente na famosa Pirâmide de Maslow. Na psicologia e na gestão, aprendemos que o ser humano precisa garantir a base — comida, segurança, descanso — antes de conseguir focar nos degraus de cima, como o conhecimento e a realização pessoal.
É cruel e até ingênuo exigir letramento e sede de leitura de quem gasta toda a sua energia vital apenas para manter a base dessa pirâmide de pé. Se a pessoa não conquista o básico, ela dificilmente terá fôlego para o degrau do saber. A literatura que não entende essa luta não é arte; é distanciamento social.
O Abismo entre o Erudito e o Popular
Existe uma fissura perversa entre o autor que domina a norma culta e o autor popular. Este último, muitas vezes ridicularizado por suas "obras simplórias", é quem realmente consegue falar com a massa. No entanto, não existe uma estratégia de entrega ou um modelo de negócio que caiba no bolso desse autor. Como costumo dizer: são muitas camadas neste abismo.
Essa barreira da linguagem me faz lembrar de um desabafo recente da influenciadora Darla Muniz. Mesmo que os números oficiais de alfabetização no Brasil pareçam altos, a realidade do letramento pleno conta outra história: a grande maioria da nossa população ainda luta para interpretar textos complexos.
Como ela bem disse, quem tem o privilégio do estudo não deveria usar o conhecimento para excluir, mas para agregar. Afinal, 'a informação não compartilhada é uma vela apagada'.
Uma Provocação Filosófica
Podemos recorrer ao conceito de "Injustiça Epistêmica" de Miranda Fricker para entender esse incômodo. Quando a indústria literária e a academia invalidam a fala de quem não possui o "diploma da norma culta", elas cometem uma injustiça contra o sujeito enquanto conhecedor. Se a comunicação não acontece de acordo com a necessidade da comunidade, ela não é ponte; é muro.
Não se trata de tornar "regular as irregularidades" da nossa língua, mas de entender que a beleza da criatividade humana reside na sua capacidade de criar novas estruturas. Tornar a literatura acessível não é apenas baixar o preço do livro, é baixar o tom da arrogância acadêmica para ouvir o que a margem tem a dizer.
Afinal, se a literatura não serve para iluminar a realidade de quem sobrevive, ela corre o risco de ser apenas um objeto decorativo em uma estante elitizada. E, como bem sabemos, uma vela que não ilumina o próximo acaba se consumindo no próprio isolamento.
Você já sentiu que um livro não fala a sua língua? Vamos conversar nos comentários.
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Não mentirei, gostaria muito de que as pessoas - todas, todas mesmo - tivessem um vocabulário rico. É utópico, eu sei; até gerou discussão num grupo de whatsapp que participo, fui xingado por dar essa minha opinião - houve quem disse: isso é elitista (no meu entender, elitista é outra coisa). Mas como exigir? Há quem acorda às 3 da manhã, para ir ao trabalho que começa às 8, tendo de pegar mais de um ônibus e até dois ou três metrôs, e chegar em casa só depois da meia-noite; como?, como, se essas pessoas não tem tempo nem para respirar? Aí (sem falar de política partidária aqui) é importante a diminuição da escala semanal de trabalho, pelo menos (se…