Descolonizar o Conhecimento e o Exercício da "Interpretação Pura": Uma Reflexão Sobre Autonomia e Discernimento
- Uiara Mei

- há 30 minutos
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Domingo chuvoso aqui em Macaé — uma cidade que se emancipou há 213 anos. Por que trago esse dado? Por nada e por tudo: apenas como porta de entrada para a reflexão que quero compartilhar. Nasci e vivo nesta cidade há 43 anos (daqui a pouco, 44), e de que isso importa?
No bairro onde resido, há uma capela com 831 anos de história (note que ela é muito mais antiga que a própria emancipação do município). De que essa informação lhe serve? Faz sentido para você?
Todos os domingos acordo com o som de cânticos litúrgicos gregorianos dessa capela — que hoje é uma igreja em reforma, ostentando uma estética neogótica. Diante disso, me pergunto: que cargas-d'água justifica essa ostentação num bairro de classe B e C, senão a perpetuação de um poder religioso? Em pleno século XXI, olhar para essa arquitetura me faz viajar no tempo, de volta ao século XV. Cacem as bruxas! Cortem as cabeças! Soltem os dragões. Ok, dei uma viajada.
Me sinto uma plebeia em um mundo distópico que tem como recurso um celular Motorola (e não um corvo) para enviar ou receber mensagens, e que paga imposto via Pix — não esquenta, também sou escritora de ficção.
Mas percebem a importância de estudar História nos dias de hoje?
O que significa descolonizar o conhecimento?
Quando trago a descolonização do conhecimento para a minha linha de pesquisa, não me refiro a um ato de ruptura radical, mas a um convite para questionar tudo o que consumimos. E isso só acontece através do discernimento e da "interpretação pura" (não como interpretação neutra ou absoluta, mas como um esforço consciente de interpretar antes de simplesmente reproduzir). Estudar História é justamente jogar luz sobre aquilo que convencionamos tratar como "imaculado".
Muitos ainda associam a palavra "descolonização" a uma postura destrutiva — como se descolonizar fosse queimar bibliotecas, apagar o passado ou invalidar os saberes acadêmicos clássicos. Minha visão é o oposto. É sobre questionar e buscar novas evidências que revelem o outro lado da narrativa oficial.
Não é sobre anulação, é sobre expansão: descolonizar não é fechar portas para o conhecimento tradicional, mas abrir janelas para o que foi deixado às margens ou contado de forma distorcida por interesses de poder.
As três perguntas da autonomia intelectual
Trata-se também de se descobrir enquanto identidade e ampliar a perspectiva a partir de três perguntas fundamentais:
Isso me serve?
Isso faz sentido para mim?
Quem veio antes de mim?
Descolonizar o saber é um exercício de autonomia intelectual. Quando proponho a interpretação pura e o questionamento contínuo, o meu objetivo é provocar o movimento do pensador ativo.
Como Artesã do Pensamento e ativista do discernimento, seguirei exercitando a construção do conhecimento por meio de questionamentos pertinentes, buscando sempre a maturidade intelectual. No meu caso, essa maturidade nasce da preservação da memória e da busca pela ancestralidade — jogando luz sobre as histórias que foram intencionalmente apagadas, silenciadas, desvalorizadas, fragmentadas, interditadas ou excluídas dos registros dominantes. Em alguns casos, houve apagamento deliberado; em outros, processos históricos mais complexos durante e após a diáspora.
Não aceite uma narrativa apenas porque ela chegou até você revestida de autoridade. Descubra sua origem. Examine seus interesses. Procure o que ficou de fora. Compare evidências. Interprete. E só então decida o que aquela narrativa significa para você.
Descolonizar o conhecimento não é aprender a pensar contra alguém. É aprender a pensar por conta própria:
descolonizar o conhecimento → questionar narrativas recebidas → investigar suas origens e contextos → reconhecer aquilo que foi marginalizado → desenvolver autonomia intelectual → produzir interpretação própria.
Esse ensaio não é para dizer sobre o que você deve pensar. É uma provocação sobre como você está pensando.



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