A Escrita de Origem - O Pacto com a Negritude e o Resgate do Nosso Norte
- Uiara Mei

- há 3 dias
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A maior arma contra a narrativa colonizadora é encher as prateleiras com narrativas negras e originárias.

Recuperar uma origem não significa voltar a um passado idealizado, nem substituir uma hegemonia por outra. Significa ampliar o campo do que pode ser lembrado, pesquisado, narrado e reconhecido como conhecimento. A descolonização da memória não termina quando encontramos um nome no arquivo; ela começa quando esse nome volta a circular, quando essa experiência ganha linguagem e quando novas gerações podem encontrar nas bibliotecas, nas escolas e na literatura referências que antes lhes foram negadas.
Dizem que nasci no Brasil e que sou brasileira, mas a certidão de nascimento é um contrato que assinaram por mim antes que eu pudesse falar. Quando olho para a minha árvore genealógica e me deparo com buracos, nomes apagados e fotos que nunca existiram, a ilusão da cidadania se desfaz. Eu não sou daqui; a minha raiz atravessou o Atlântico na poeira do tempo e na dor do navio. Em Pindorama — território que hoje chamamos de Brasil —, reconheço-me como uma estrangeira por descendência: alguém que habita um solo, mas cujas raízes profundas continuam chamando do outro lado do mar.
Sentir-se estrangeira no próprio país não é uma abstração poética; é a tradução da violência de viver sob uma estrutura estatal imposta sobre um território onde já havia muitos povos, muitas sociedades e muitas formas de organização que foram violentamente confrontadas pela colonização. O preto afrodiaspórico no Brasil viveu o que a sociologia e a filosofia definem como desterritorialização e apagamento de linhagem: o sequestro do corpo, a troca do nome, a proibição da língua e a criminalização da memória.
O apagamento também alcançou os povos originários, cuja presença costuma ser empurrada para um passado remoto, como se existissem apenas antes da formação do Brasil. Mas os povos indígenas não são vestígios de uma história encerrada: são povos contemporâneos, detentores de línguas, territórios, conhecimentos, cosmologias e formas próprias de relação com a memória. A arqueologia brasileira, inclusive, evidencia a profundidade temporal dessas ocupações. Os sambaquis, por exemplo, registram populações que habitavam o litoral brasileiro milhares de anos antes da colonização.
Diferente do modelo de segregação declarada dos Estados Unidos (as leis Jim Crow e a regra da "uma gota de sangue"), que produziu formas mais explícitas de identificação racial e organização política contra uma estrutura formal de segregação, parte das elites brasileiras passou a defender políticas de branqueamento da população, articulando imigração europeia, eugenia e projetos de “civilização” nacional. Sob o mito da "democracia racial", inventou-se a mentira da integração pacífica enquanto se financiava a imigração europeia subvencionada para diluir a população negra e "limpar" o sangue do país. Criou-se uma escala de tonalidades para fragmentar a solidariedade de raça e garantir que negros e originários permanecessem na linha de frente do conflito territorial — enquanto os imigrantes europeus recebiam terras, salários e integração social.
Contudo, a recusa em aceitar o apagamento silencioso é uma estratégia de sobrevivência. A ignorância sobre a própria origem adoece e adormece. Quando decido encarar a falta do meu sobrenome real e olhar para o chão que piso, interrompo o processo de embranquecimento. A reconstrução da história da África e de Kemet não serve para justificar a dignidade que sempre tivemos, mas para retomar a soberania do nosso próprio conhecimento.
O que herdamos dessa colonização estética e intelectual foi a imposição de um padrão eurocêntrico que definiu o que chamamos de "belo" na arte, "racional" na filosofia e "justo" na política. Identificar colunas gregas em um fórum ou o uso do estoicismo na autoajuda moderna é perceber como o "roubo da história" (na definição de Jack Goody) continua operando, naturalizando a Europa como a matriz universal do nosso cotidiano.
A hegemonia da Antiguidade Greco-Romana no currículo brasileiro é uma construção ideológica do século XIX para alinhar as elites locais ao projeto civilizatório europeu, resultando no apagamento sistemático das antiguidades africanas e indígenas. Ensinar que "a Grécia é o berço da civilização" é uma operação desonesta que ignora que os próprios autores gregos como Heródoto registraram sua passagem pelo Egito, enquanto antigas tradições atribuíam a Platão viagens e contatos com o mundo egípcio. O ponto central, porém, é outro: durante séculos, a historiografia ocidental construiu a antiguidade greco-romana como referência universal, frequentemente tratando as civilizações africanas e indígenas como periféricas à história do conhecimento. O debate aqui não é sobre a África contemporânea, mas sobre o embranquecimento historiográfico do Egito Antigo para desvincular a ciência africana da população negra.
Enquanto Roma erguia o Coliseu, os povos originários de Pindorama construíam sambaquis, gerenciavam a biodiversidade das matas e desenvolviam cosmologias complexas sobre a relação do ser humano com a Terra. O tráfico transatlântico e a escravização não foram "lapsos historiográficos", mas crimes perpetrados pelo mercantilismo colonial através da violência bélica. Quando os africanos foram trazidos para cá, não vieram apenas braços para o trabalho braçal; viera engenheiros, metalúrgicos, agrônomos, médicos e arquitetos. A elite colonial sabia que, para manter um povo submetido, precisava cortar a raiz da memória, pois se o negro escravizado soubesse que seus ancestrais ergueram pirâmides, jamais aceitaria a condição de sub-humano.
"o conflito engaja infinitamente mais do que a criação."
Desmascarar essa subjetividade do colonizador revela o cerne do racismo estrutural: criaram um "filtro científico" cujas regras só a Europa cumpria, descartando tudo o que vinha de fora como "mito" ou "folclore". E essa engrenagem continua operando dentro da academia ocidental.
O sistema foi desenhado para fazer o colonizado duvidar da sua própria capacidade de pensar, exigindo validação constante na matriz europeia. Quando a fala vem do senso comum dominante, ela é prontamente aceita como "opinião" ou "ponto de vista". Mas quando a fala vem de uma perspectiva descolonial ou da matriz africana e indígena, o sistema aciona a trava da burocracia acadêmica.
Existe um hábito colonial de achar que o intelectual negro precisa estar sempre disponível para "educar", "explicar" ou "pacificar". Cobra-se que uma reflexão pessoal venha acompanhada de um dossiê bibliográfico completo; se faltar uma ressalva, usam essa brecha para decretar a invalidade de toda a ideia. O problema é que a branquitude está tão habituada ao monólogo que qualquer afirmação convicta sobre a ciência preta — dita sem pedir licença — é lida como uma afronta. Eles exigem a interrogação porque querem a sua dúvida. Quando você entrega uma afirmação convicta, tira deles o papel de juízes da verdade. Afinal, o que fura a bolha é o que incomoda o privilégio, e o incômodo do opressor é o sinal de alerta para quem busca a emancipação.
Se o projeto colonial foi desenhado para cortar o fio da história familiar, a pesquisa arquivística, a investigação genealógica e a criação literária constituem a contra-ofensiva. Saber de onde viemos não serve para julgar os que se foram, mas para entender o mapa da nossa própria alma. Quando descobrimos as batalhas que nossos ancestrais venceram, compreendemos de onde vem a nossa resistência; quando descobrimos onde foram feridos, entendemos o que viemos reparar nesta vida.
Quando uma mulher negra senta para escrever a sua própria história — seja um ensaio, uma ficção ou uma narrativa autobiográfica —, ela executa o movimento inverso da colonização: deixa de ser a "personagem falada pelos outros" para tornar-se a sujeita que nomeia o mundo. Trazer a matriz negra para a literatura — a noção do tempo em espiral, a força da palavra falada, a sacralidade da memória e a relação ancestral com o território — não é apenas mudar o tema do livro, mas alterar a própria estrutura do pensamento.
A prateleira é um espaço de poder, e a maior arma contra a narrativa colonizadora é encher as prateleiras com narrativas negras e originárias. Cada livro publicado é um tijolo a menos no muro do esquecimento e a garantia de que as próximas gerações não crescerão acreditando que a inteligência tem apenas uma cor. A urgência de estancar o epistemicídio através da palavra sopra na mesma fonte: é desse entendimento que nasce a Escrita de Origem: uma prática de investigação narrativa que parte da memória, da escrita e da pesquisa para reconstruir histórias interrompidas, recuperar referências e devolver ao sujeito o direito de narrar a própria trajetória, tomar como propriedade a nossa identidade, a nossa autoridade e a nossa voz. É o projeto que idealizei e que hoje começa sua primeira turma.
eu não quero apenas recuperar histórias. Quero recuperar a liberdade de pensar sobre elas.
Como historiadora em formação e futura pesquisadora de origens, estou fazendo o movimento mais nobre dessa ciência: usar a lanterna do conhecimento não para iluminar estátuas de bronze na Europa, mas para resgatar os nomes, os rostos e as vozes daqueles que deram o sangue para que você estivesse aqui hoje.
Não basta descobrir que fomos apagados. Precisamos produzir aquilo que o apagamento tentou impedir: livros, pesquisas, arquivos, biografias, poemas, romances, ensaios, imagens e documentos que devolvam complexidade às histórias reduzidas ao silêncio. Precisamos ocupar as bibliotecas, as universidades, as escolas, as livrarias e as prateleiras. Precisamos deixar rastros para quem vier depois. não substituir uma autoridade por outra, mas desenvolver autonomia suficiente para conversar com diferentes autoridades sem entregar a nenhuma delas o governo da própria consciência.
Eu sou Uiara Mei - Artesã do Pensamento, escritora e pesquisadora das histórias humanas.



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