Será que a minha família saberá contar a minha história?
- Uiara Mei

- há 5 horas
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Dizem que o diploma e o ensino superior já não valem tanto no mundo de hoje. Mas para mim, que sou tradicional em muitos aspectos - especialmente na busca rigorosa pelo conhecimento -, isto é vitória, resistência e sobrevivência. É uma herança cravada na matéria, algo que ninguém pode tomar.
Olho para os quadros na parede do meu escritório e me lembro de cada desafio superado com discernimento, silêncio e dignidade. Pendurá-los (hoje) pode parecer vaidade para quem sempre teve o direito à memória assegurado; para mim, é superação. É o registro tátil da minha existência e uma forma de honrar a minha ancestralidade. O que está registrado e cravado no papel não se contesta.
A busca ancestral e a construção da identidade
Nenhum processo de reconstrução de identidade acontece no vazio. A busca pelas nossas raízes ancestrais exige a investigação dos vestígios que nos foram deixados e daqueles que precisamos, nós mesmas, produzir. Saber contar a nossa história o mais próximo de como ela realmente foi é um ato de restituição.
Na história da diáspora negra, o sistema operou para apagar nomes, rasurar linhagens e decretar o fim prematuro de narrativas inteiras. Por isso, a preservação da memória através do documento - seja uma foto antiga, um papel guardado, um certificado ou um livro - é um movimento de recalcitrância política e espiritual. Guardar o registro é recusar o ponto final que a colonização tentou nos impor. O documento mantém a história viva, pulsante e aberta, impedindo que o sistema a declare encerrada.
A fragilidade das nuvens e o livro como acervo permanente
Vivemos a ilusão da permanência digital, mas sei que plataformas mudam, servidores fecham, cartões de memória corrompem e redes sociais são voláteis. A história nos ensinou que poucas foram as famílias negras que conseguiram preservar intacta a tradição oral de perpetuar a memória dos seus ancestrais.
Foi a partir dessa percepção que decidi transformar meu site em um celeiro de criação e acervo de memórias. Entendi que enquanto eu estiver viva, farei questão de contar, organizar e guardar a minha própria história - e, acima de tudo, de imprimi-la em páginas físicas. O livro físico atravessa séculos e permanece quando a tecnologia pode desmoronar.
O tempo radial e a permanência dos rastros
Essa busca não nasce da pressa reativa do mercado, mas da sabedoria contemplativa de quem entende o valor da pausa. A maturidade me ensinou que criar exige economia de energia e visão de longevidade. Vivo em um tempo radial: o passado da minha linhagem, o presente da minha escrita e o futuro da minha maturidade acontecem agora, tecidos através da minha consciência.
Organizar meus vestígios, publicar minhas obras e registrar meus passos não é um gesto isolado de ego. É um trabalho artesanal e silencioso de salvaguarda. Este ato de pendurar os diplomas na parede não é o fim de uma jornada, mas a marcação de um ponto de apoio. Os passos seguintes rumo ao mestrado e ao doutorado já se desenham no horizonte, enquanto concluo meu Bacharelado em História.
Não documento apenas para o presente. Escrevo para que o tempo não ouse rasurar quem fui, o que pensei e o que construí. Antes mesmo de saber exatamente para onde eu estava indo, eu já estava deixando rastros - e agora garanto que esses rastros permaneçam cravados no papel e na história.
Sou Uiara Mei - Artesã do Pensamento e pesquisadora de histórias apagadas.




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